Na agitação do tempo presente, é imprescindível saber parar. Vive-se envolvido em barulho, corre-se de um lado para o outro nas mais diversas atividades, cruza-se com dezenas de pessoas, nas ruas, nos carros, nos estabelecimentos comerciais, nos lugares de diversão. Muitas vezes fica-se dominado pelo stress a ponto de se chegar a um certo desequilíbrio psicológico que resulta em nervosismos, por vezes com atitudes desconcertantes. É neste mundo assim que se torna urgente os tempos de silêncio e com eles os tempos de oração. Na vida cristã há a oração litúrgica como acontece em cada domingo na Eucaristia; há também a oração comunitária com que se introduz uma reunião de grupo; há ainda os grandes momentos de oração que uma peregrinação pode conter. Tudo isto, porém, supõe a oração pessoal. Sem esta, todas as outras formas de oração são insuficientes. A oração pessoal é encontro, é diálogo, é experiência, é compromisso. Na oração pessoal a relação é apenas com Deus que se reconhece Pai e Amigo próximo de todos os pequeninos e grandes problemas da nossa vida. Conhecemos orações extraordinárias que o revelam:
• a oração de David é oração de reparação pelos erros que ele cometera. Esta oração, de grande intensidade, é reveladora do seu desejo de perdão. No salmo 50, David pede: “Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia apaga o meu pecado.”• a oração de Moisés é uma oração de súplica pelo povo que repetidamente se torna infiel. Mas Moisés faz uma oração para matar a sede e a fome do povo com o Maná e a água do deserto; faz uma oração para pedir perdão pelo bezerro de ouro que o povo havia construído; faz uma oração para a cura de quantos haviam sido mordidos pelas serpentes. A oração de Moisés é sempre uma oração de súplica.• a oração de Maria é uma oração de ação de graças. O Magnificat revela como a Senhora está agradecida a Deus que nela fez maravilhas: “a minha alma engrandece o Senhor, o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque Ele pôs os olhos nesta sua humilde serva” (Lc 1, 48).• a oração de Cristo é uma oração de abandono à vontade de Deus, embora sentindo a dureza da missão que lhe fora confiada. Na noite da agonia Jesus pôde dizer: “Senhor, se é possível, afasta de Mim este cálice; não se faça porém a minha vontade, mas apenas a Tua” (Mt 26, 39).
Estas e muitas orações que encontramos na Sagrada Escritura são oração pessoal, indispensável à missão que cada um recebera de Deus. Na oração pessoal o cristão adora, suplica, repara e agradece.
2. A oração e os lugares de encontro pessoal com Deus. Há muita gente que, ao falar de oração, diz que reza no carro ou no ônibus ao volante do automóvel, no meio do trânsito, na agitação da casa, ou mesmo quando corre para o trabalho ou dele regressa. Será possível fazer oração nestas circunstâncias? A oração pessoal é sempre um tempo de encontro a sós com Deus, pelo que se torna fundamental descobrir esses lugares onde o encontro pode acontecer. Também aqui a Palavra de Deus nos pode ajudar:
• a Tenda do Encontro, no Livro do Êxodo, revela que Moisés sentiu a necessidade de construir um lugar onde pudesse encontrar-se a sós com Deus. Construiu a Tenda fora do acampamento, e, ali, falava com Deus como um amigo fala a seu amigo (cf. Ex 33, 7-11).• Os lugares solitários são os escolhidos de Jesus para, depois de despedir a multidão, se encontrar a sós com o Pai. É depois de o ver rezar que os discípulos lhe pedem para os ensinar a falar também com Deus. Jesus ensinou-lhes, então, uma oração extremamente simples, o Pai-Nosso (cf. Lc 11, 1-4).• O silêncio do quarto é o que Jesus recomenda aos Apóstolos quando lhes fala da oração pessoal: “quando quiseres rezar fecha-te no teu quarto e ali, a sós com Deus, sem muitas palavras, fala com Ele, como um homem fala a outro homem” (cf. Mt 6, 5-11).• O alto dos montes era o lugar privilegiado dos profetas, para o diálogo de intimidade com Deus. Era ali que eles recebiam as mensagens importantes para o povo de Israel quer em tempo de exigência quer em garantias de esperança.
Será que os cristãos são capazes de encontrar o seu lugar de oração pessoal? Cada um, com originalidade, deve procurar um espaço onde possa diariamente fazer a experiência de Deus para com Ele e se comprometer numa vida de fidelidade ao Evangelho.
3. A oração e a Palavra de Deus. Procura-se muitas vezes um livro para, a partir dele, dialogar com Deus. O livro de oração por excelência é, porém, a Sagrada Escritura, sobretudo no Novo Testamento. Se o Evangelho nos conta a história de Jesus em catequeses de extraordinária beleza, se os Atos dos Apóstolos nos revelam a fidelidade dos Apóstolos nos primeiros tempos da Igreja, se as Cartas de Paulo, de Pedro e de João nos dão orientações seguras para os comportamentos na comunidade, então de que mais se precisa para uma oração exigente e de projeção na vida?
• A Dei Verbum, no Concílio Vaticano II, refere que “a Deus falamos quando rezamos, mas a Deus escutamos quando lemos a sua Palavra”. (DV 25). De fato, pela Palavra de Deus o Senhor fala ao crente, respondendo a tudo aquilo que na oração foi nele preocupação de vida.• A Lectio Divina é uma forma muito bela de fazer oração, uma vez que tomando um texto se repete muitas vezes, até descobrir o que é que no concreto Deus quer pedir ao cristão. Assim supera-se a leitura superficial, descobre-se o que Deus tem direito de pedir, faz-se uma experiência de vida extraordinária, e assume-se a respiração de Deus em cada atitude futura. A Lectio Divina outra coisa não é do que o aprofundamento da Palavra de Deus.• O aprofundamento da fé não é possível sem um contato próximo da Palavra de Deus. De fato, a fé é a adesão incondicional à Pessoa de Jesus Cristo, mas como diz a Carta aos Hebreus “Deus que nos falou outrora pelos profetas, hoje só tem uma forma de nos falar, através de Cristo, Palavra Viva” (Heb 1, 1-2). De facto, Jesus só na Palavra se dá a conhecer.• A experiência vital de Deus encontra-se sobretudo no contato com a Palavra. É que na Palavra é o próprio Senhor que nos fala, que nos conta as suas maneiras de agir nas mais diversas circunstâncias e nos convida a segui-l’O sem condições. S. Paulo pôde dizer: sede meus imitadores como eu sou de Cristo. Imitar Jesus Cristo é fazer a experiência de Deus.
Não pode haver uma oração verdadeira sem uma relação estreita com a Palavra de Deus. A própria Eucaristia ou os Sacramentos outra coisa não são do que a chamada à Palavra de Deus, para multiplicar graças na nossa vida de cristãos.
4. A oração e o silêncio. Na tal sociedade de barulho, o silêncio é um imperativo para o equilíbrio psicológico de cada um. A oração pessoal também contempla momentos de silêncio. Longe do ruído, sem o barulho da rádio e da televisão, no silêncio do quarto de cada um, é possível respirar o mistério de Deus. Programar este silêncio pode ser ponto de partida não apenas para uma saúde espiritual, mas até para o equilíbrio humano, indispensável ao nosso viver no tempo presente. Pode fazer-se silêncio no segredo dum templo, junto ao altar do Santíssimo. Pode fazer-se silêncio numa ermidinha da montanha onde se foi em passeio de fim de tarde. Pode-se fazer silêncio caminhando a pé à beira-mar ou entre as árvores de um pequeno bosque. Mas pode também fazer-se silêncio na nossa casa, quando toda a gente saiu e nos permitiu ficarmos sós. Oportunidade única para conversar com Deus. Se fizermos esta experiência confirmaremos a importância da oração pessoal, caminho de espiritualidade que nos torna mais felizes.
5. Na nossa comunidade, no Advento e na Quaresma, teremos algumas vigílias em que o silêncio terá o primeiro lugar. A oração pessoal será, então, tempo de encontro, de diálogo e de experiência vital de Deus.
Monsenhor Victor Francisco Xavier Feytor Pinto
Pároco da Igreja dos Santos Reis Magos- Portugal








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