Isto significa ter o senso do divino e do humano. Como proclamou o Apóstolo Tiago, “Todo dom vem do alto e desce do Pai das luzes (Tg 1,17). Daí a lição sublime de São Paulo: “E, se recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?”(1 Cor 4,7). Eis a razão pela qual a humildade é a virtude cristã por excelência. Longe de infantilizar o ser pensante ela o leva a uma aliança com o Todo-Poderoso Senhor. Coloca-se o batizado nas antípodas da atitude do orgulhoso, crispado na afirmação de si mesmo numa oposição a Deus e aos outros. A humildade torna o cristão receptivo e é um princípio de generosidade, de disposição para o serviço. O orgulho bloqueia o homem nos limites estreitos de seu pequeno “eu”.
A humildade abre cada um à dimensão mesma de Deus. O humilde, não obstante as tentações, as dificuldades da peregrinação terrestre, avança pelo caminho da excelência de vida e da santidade. Torna-se, por isto mesmo, o artesão da paz consigo, com os outros e com Deus. É que o humilde coloca em prática a diretriz do Eclesiástico: “Humilha-te entre as grandeza do mundo e acharás misericórdia junto a Deus” (Eclo 3,18). De fato, a empáfia, a altivez, a embófia tudo transtorna. O humilde na alheta do Apóstolo Pedro se reconhece repleto de falhas:“Sou um homem pecador” (Lc 5,8). O humilde reconhece que somente Deus é santo e perfeito e onde está o ser humano há erros e desvios a serem corrigidos. Modelo excelso de humildade foi Maria a qual, não obstante cumulada de graças extraordinárias, exclamou:“O Senhor olhou para a humildade de sua serva”. Aliás todo o seu cântico é um poema de exaltação à grande virtude (Lc 1,46-55). O humilde “descansa no Senhor e nele espera” (Sl 36,7).
Jesus deu o exemplo e aconselhou: "Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas" (Mt 11,29). São Paulo decodificou a humildade do Mestre divino e pode asseverar:“ Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ora ele subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser igual a Deus um bem a que não devesse nunca renunciar; mas despojou-se a si mesmo, tomando a natureza de servo, tornando-se semelhante aos homens [...] humilhou-se, fazendo-se obediente até à morte, e à morte de cruz. E por isso Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo o nome” (Fp 2, 5-10). Cristo é o protótipo do homem humilde e seu discípulo O deve imitar. A humildade liberta o cristão da auto-suficiência, afastando-o da idolatria de si mesmo. Sai de seu egoísmo e pode então louvar e bendizer a Deus e servir os irmãos. Evita todo tipo de confrontação e comparação, valorizando os méritos alheios. O humilde se submete aos Mandamentos de Deus e da Igreja, dado que está capacitado a renunciar à sua própria vontade e de aderir à de Cristo.
Disto resulta uma profunda alegria, mesmo porque o orgulho não produz senão inquietação e insatisfação, conduzindo a uma subjetividade doentia. Este egocentrismo leva a enquadrar os outros e até Deus nas categorias mentais próprias. Aí está o motivo pelo qual o orgulhoso se deixa levar pela revolta, cólera, pela inveja, pelo desprezo do próximo. O orgulho é um eco da primeira incoerência do homem que quis se colocar acima de Deus e a conseqüência foi a perda da amizade do Criador e da harmonia consigo e com os outros. Cumpre, por tudo isto, aprender a ser humilde a cada dia, sobretudo através da oração que já é em si um ato de humildade.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho







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